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Por uma moral dos tempos atuais por Eduardo Ayala
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(Foto: Abstactra)
Para Lívia e Antônia, minhas netas.
Nesta vida, absolutamente nada interessa mais, a este escriba que vos fala, do que entender o significado de moral. Para Confúcio consistia no aperfeiçoamento permanente de nós mesmos ao longo da nossa existência, sem preceitos estáticos concebidos de antemão. Aristóteles, por sua parte, entendia a virtude como sinônimo de qualidade moral; virtuoso era aquele que, na procura da felicidade, praticava com afinco o bem aos outros. Assim, dir-se-ia que a moral não é entendida como um estado e sim como uma realização de continuo aprimoramento.
Para o criticismo kantiano, pedra angular da moderna filosofia, a moralidade é fruto inconteste da racionalidade humana isenta de quaisquer tipos de orientações religiosas. A autonomia da vontade, afiançada pela liberdade, é a única faculdade do homem capaz de suscitar um princípio moral fincado no uso exclusivo da razão: tal autonomia pressupõe a determinação de servir-se de si mesmo sem as indicações de outrem. Ainda, evitando o circunlóquio antropocêntrico, Kant transfere o ser humano e as suas vicissitudes para o ponto fulcral da sua filosofia; outra postura, segundo ele, seria totalmente imoral – ora pois, a pessoa como fim supremo, jamais como meio.
Por outro lado, atribui-se a Nietzsche a proverbial exaltação do niilismo pela sua rejeição a quaisquer crenças, convicções ou valores tradicionais. Contudo, parece que a sua orientação filosófica, além da busca da realidade sem máscaras, se contrapõe à perenidade de todo dogma que possa tolher a liberdade reflexiva, demiúrgica, criadora... Em a “Genealogia da moral” Nietzsche sugere abordar a questão dos valores mantendo um radical distanciamento dos princípios morais trancendentais (metafísicos) que, comumente, tendem a aprisionar-nos. Vale dizer, para este filósofo, o ser humano deve ser, além de um desmistificador, um contínuo criador de novos valores morais.
Em face do acima exposto de maneira sucinta, depreende-se que a moral não é, necessariamente, um princípio social normativo incontestável. Ela é variável e muda em função das diversas cadências da historia. Contudo, para os filósofos supra, o centro de gravidade de todas as reflexões valorativas deveria ser sempre a essência da humanidade na sua completude fisico-espiritual.
“Com mérito”, filme de Alek Keshishian, mostra que é possível migrar do egoísmo para o desprendimento. Monty (Brendan Fraser), um graduando presunçoso de Harvard, conhece Simon (Joe Pesci), um morador de rua. Na trama, Monty dissipa as diferenças entre ambos e dá passo a uma relação imune à intolerância e o preconceito; e essa amizade fraterna perdurará, enfim, até a partida de um deles. Pois bem, Aristóteles e Kant designam essa forma de altruísmo de moral!
No dizer de Confúcio e Nietzsche, o homem deve buscar, infindavelmente, uma atitude comportamental condizente com a sua época (Zeitgeist). Sem submeter-se a princípios canônicos nem a obliquidades ideológicas ou a formas de pensar e agir que evoquem predicados do passado, hoje, em desuso. Aperfeiçoar-se, para esses filósofos, significa livrar-se das imutáveis amarras que indigitam os rumos da vida. E de fato, muitos princípios socialmente aceitos no passado jazem, atualmente, na mais conspícua inanidade. Por isso, urge a criação de uma nova ordem moral concordante com os tempos atuais, o que implica, imperiosamente, a existência de um ambiente de liberdade, pluralismo e respeito aos congêneres. A escritora austríaca Marie von Ebner-Eschenbach já dizia: “A moral que serviu para os nossos pais não mais serve aos nossos filhos”.
Prof. Dr. Eduardo J. Z. Ayala
