As avós e eu

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A longevidade, uma fase inédita na história contemporânea, tem proporcionado aos seres humanos, estilos e propósitos de vida que jamais foram experimentados. O que antes parecia um ponto final transformou-se em uma prorrogação cheia de curiosidade sobre o desconhecido e vontade de experimentar. 

Viver mais e intensamente é uma realidade acessível e o envelhecimento revela-se uma etapa cheia de novas possibilidades. Profetas da tecnologia, como Ray Kurzweil (profeta da Inteligência Artificial), têm projetado cenários em que a vida humana pode ser mais estendida, com a ajuda de nano robôs programados para cuidar do nosso organismo. Tais previsões alimentam uma visão futurista onde a expectativa de vida não é apenas uma medida do tempo, mas uma oportunidade de viver de acordo com os desejos e as escolhas, realizando planos e se deleitando.

 A longevidade surge como uma chance de explorar novas formas de existir, desafiando as convenções e expectativas anteriores. No coração dessa revolução está a mentalidade aberta dos longevos, pessoas que, longe de se resignar ao etarismo, se apegam à vida com curiosidade e entusiasmo. Em um mundo onde as inovações tecnológicas fluem de maneira rápida e constante, a atualização contínua da identidade humana se torna um campo fértil para novas descobertas. A sociedade contemporânea cria um ambiente instigante e paradoxal, desafiando o equilíbrio entre o avanço tecnológico e os impactos na cultura e na psicologia coletiva. 

Em meio a essa transformação, as avós queridas que eu costumava visitar na juventude e degustar um saboroso doce caseiro, e das quais tenho amáveis lembranças, agora, as que encontro são companheiras de vida na maior serenidade e gratidão. Passeamos juntos, como se fôssemos jovens em plena vitalidade, numa troca que se revela rica e animada por eventos ocasionais e novidades. Embora ainda não seja avô, sinto-me posicionado como tal, pronto para encontrar nelas uma continuidade afetiva que transcende gerações, em forma de sujeito social conectado e parte integrante de uma era muito especial. 

O envelhecimento longevo representa uma fase de reinvenção e de resgates. Nos encontros com as avós ou com as que se preparam para se tornar avós, traz consigo o poder de recuperar legados, corrigir erros e, acima de tudo, desfrutar de uma vida cheia de sentido, humor e aprendizado. Com elas, aprendo sobre as mudanças que ocorreram, não só nelas, mas em mim também, e percebo que a cada dia tudo que fazemos nos oportuniza valorizar a vida que ainda temos. 

A longevidade é também um espaço para realização de sonhos que ficaram guardados e para o cultivo de um tipo de sabedoria que não se mede apenas pela idade, mas pela capacidade de se reinventar. Com as mães atuais, também me comunico, assim como com as jovens e aprendo todos os dias, mas com as avós, me divirto, talvez, porque nos identificamos em uma conexão única, numa troca de sabedoria e alegria que transcende gerações. A longevidade se caracteriza como uma fase ainda desconhecida em sua expansibilidade, marcada pela indagação, pelo desprendimento e pela disponibilidade de experienciar o que se apresenta, sem os estigmas que antes macularam o envelhecimento. O futuro está mais à nossa espera do que nunca e a longevidade é, sem dúvida, um convite para alcançá-lo com intensidade e plenitude.

 

Caio Cesar Gomes

Psicólogo

As avós e eu

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